Planejar a cibersegurança deixou de ser um esforço apenas tecnológico para se tornar uma prioridade estratégica de negócio. Com ataques digitais cada vez mais sofisticados e frequentes, a segurança da informação entrou definitivamente na agenda dos conselhos corporativos.
No Brasil, o cenário é bastante complexo: cerca de 80% das empresas sofreram pelo menos um incidente cibernético nos últimos 12 meses. Em 2024, foram registradas 356 bilhões de tentativas de ataque cibernético no país – número que já alcançou 314,8 bilhões apenas no primeiro semestre de 2025. Esses dados ilustram a escala dos riscos e reforçam que segurança digital não é mais um tema operacional, mas um risco crítico de negócio que afeta reputação, confiança do cliente e continuidade das operações.
Paralelamente, as normas regulatórias evoluíram e pressionam as organizações a adotarem boas práticas de segurança. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e a atuação mais firme da ANPD demandam prevenção de incidentes e respostas ágeis a vazamentos. Setores como o financeiro seguem regulações específicas de cibersegurança, e novas legislações – como o Marco Legal da IA – também precisam ser inseridas no contexto corporativo, exigindo adequação ética e proteção no uso de inteligência artificial.
Cenário de ameaças digitais crescentes
A superfície de ataque das organizações se expandiu exponencialmente com a transformação digital e o trabalho híbrido. Os cibercriminosos aproveitam tecnologias avançadas para aumentar escala e eficácia de suas investidas – e o Brasil segue como um dos alvos prioritários desses atores maliciosos. O resultado é um volume recorde de ataques e uma sofisticação inédita das táticas empregadas.
Entre as ameaças mais recorrentes está o ransomware, que nos últimos anos evoluiu para um modelo industrial de extorsão. Se antes o foco dos criminosos era “apenas” criptografar dados para pedir resgate, agora o objetivo principal é paralisar operações críticas da vítima.
Setores inteiros de negócios (faturamento, logística, produção) são travados para forçar um pagamento rápido, e muitas vezes o maior prejuízo não é a quantia do resgate, mas os dias ou semanas de inatividade que afetam o negócio. Em 2025, vimos o ransomware amadurecer como ecossistema: apenas no primeiro trimestre, 2.302 empresas globalmente tiveram dados vazados em sites de extorsão, o maior número já registrado em um trimestre.
Grupos criminosos expandiram seu arsenal explorando cadeias de suprimentos e vulnerabilidades zero-day para aumentar o alcance dos ataques. No Brasil, 40% das grandes empresas relataram incidentes de ransomware no último ano, e a tendência para 2026 é de ainda mais campanhas criativas e coercitivas, com uso crescente de exploits desconhecidos e técnicas de vishing e engenharia social para contornar defesas como MFA.
Outra frente crítica são os ataques de engenharia social aprimorados por IA. O tradicional phishing “genérico” deu lugar a spear phishing hiper-realista: criminosos empregam IA generativa para criar e-mails e mensagens que imitam com precisão a linguagem de executivos, fornecedores ou parceiros de confiança. Deepfakes também entram em jogo, falsificando vozes e vídeos de pessoas conhecidas para enganar funcionários.
Isso torna as fraudes de identidade e golpes de comprometimento de e-mail corporativo muito mais difíceis de detectar, aumentando o risco de credenciais roubadas e acessos indevidos. Não por acaso, cerca de 37% das empresas brasileiras já enfrentaram uso malicioso de deepfakes e 31% relataram ataques conduzidos com auxílio de IA em 2024 – ameaças emergentes que figuram entre as mais temidas pelas organizações.
Além disso, ataques de negação de serviço (DDoS) permanecem como risco constante, visando tirar do ar sites e sistemas críticos. Em um país onde canais digitais (inclusive meios de pagamento instantâneo como o Pix) são amplamente adotados, ataques volumétricos capazes de sobrecarregar infraestrutura podem interromper serviços e causar danos reputacionais severos.
De fato, observamos um aumento de fraudes financeiras online e golpes explorando o Pix, o que força empresas brasileiras a reforçar defesas de rede e disponibilidade. Sem mecanismos de anti-DDoS e arquiteturas robustas de nuvem, as organizações ficam reféns da instabilidade nesses cenários de ataque.
Por fim, a expansão da Internet das Coisas (IoT) e de ambientes em nuvem multi-cloud ampliou as brechas potenciais. Dispositivos conectados – de sensores industriais a aparelhos domésticos usados em home office – criam novos vetores de intrusão se não forem devidamente protegidos. Incidentes recentes mostram aumento de 87% em ataques de ransomware contra ambientes industriais (OT), evidenciando a urgência em proteger dispositivos IoT/OT e impor segmentação de redes para isolar sistemas críticos.
Evolução regulatória e foco em governança
Com a crescente criticidade do risco cibernético, a governança e a conformidade ganharam protagonismo no planejamento de segurança. Reguladores e órgãos governamentais, no Brasil e no mundo, intensificaram esforços para estabelecer normas que incentivem (ou obriguem) as organizações a se proteger melhor.
A maturidade regulatória brasileira avançou significativamente nos últimos anos. A LGPD, em vigor desde 2020, estabeleceu requisitos claros para proteção de dados pessoais e impôs multas severas para incidentes decorrentes de negligência. Em 2023 e 2024, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) publicou regulamentações detalhadas e aplicou sanções, deixando claro que a impunidade em casos de vazamento ficou para trás. Setores regulados também elevaram a barra: o Banco Central do Brasil e a SUSEP, por exemplo, emitiram circulares e resoluções exigindo políticas robustas de segurança cibernética e gestão de riscos tecnológicos nas instituições financeiras e seguradoras. Até mesmo a área de infraestrutura crítica ganhou atenção via programas nacionais (como a Estratégia Nacional de Cibersegurança – E-Ciber) incentivando práticas de proteção em energia, telecomunicações, etc.
No horizonte de 2026, novas frentes regulatórias despontam. O Marco Legal da Inteligência Artificial, em discussão no país, deverá impor princípios de transparência, ética e responsabilidade no uso de IA – incluindo requisitos de segurança para algoritmos e dados. Globalmente, marcos como o regulamento europeu de IA e a diretiva NIS2 (na Europa) influenciam o ecossistema, sinalizando que governos exigirão maior prestação de contas em cibersegurança. Outro fator é a demanda crescente por seguros cibernéticos, que pressiona empresas a adotarem controles sólidos para serem elegíveis a apólices (algo já notado em mercados mais maduros).
Essa evolução regulatória trouxe um recado claro: segurança não é só questão técnica, é um imperativo de negócio e de conformidade. Empresas no Brasil reportam que riscos cibernéticos estão entre suas principais preocupações, mas muitas ainda não se sentem devidamente preparadas para enfrentá-los.
De fato, pesquisas feitas com executivos brasileiros apontam que 66,5% das organizações brasileiras colocaram o risco cibernético no top 5 de preocupações, porém percentual similar (66,1%) afirmou estar estruturado para combater ataques – o que indica que um terço ou mais permanece vulnerável, preocupado mas não preparado o suficiente. Essa lacuna reflete a necessidade de evoluir a maturidade de cibersegurança, indo além de comprar ferramentas e focando em processos, pessoas e governança efetiva.
Empresas líderes já entendem que ter um firewall de última geração, um EDR com IA ou MFA, por si só, não garante proteção se faltarem governança forte, processos integrados e resposta a incidentes bem definida. Por isso, a cultura de segurança e o comprometimento da alta gestão tornaram-se fatores-chave.
Neste ano, organizações mais bem preparadas serão aquelas que tratam cibersegurança como um processo contínuo, alinhado à estratégia corporativa e medido por métricas claras de maturidade – não como um projeto pontual ou responsabilidade apenas da TI. A segurança precisa permear a tomada de decisão de negócio, traduzindo riscos técnicos em impactos financeiros para que executivos e conselhos entendam o que está em jogo. Essa integração entre tecnologia, gestão de riscos e políticas públicas (leis e normas) configura a base de uma abordagem resiliente e sustentável.
Zero Trust como novo modelo de segurança
Diante de violações constantes, uma nova filosofia arquitetural ascendeu nos últimos anos: o Zero Trust. Em vez de confiar automaticamente em usuários ou dispositivos dentro do perímetro corporativo, o Zero Trust adota a premissa “nunca confie, sempre verifique”. Nenhuma conexão é considerada segura por padrão, seja ela originada na rede interna ou externa. Cada solicitação de acesso a recursos deve ser autenticada e autorizada de forma contínua, com base em identidade, contexto e postura do dispositivo.
Esse modelo deve ganhar ainda mais tração porque endereça um ponto nevrálgico: a identidade tornou-se o novo perímetro de segurança. Com aplicações em nuvem, trabalho remoto e dados espalhados por vários ambientes, o antigo perímetro de rede se dissolveu.
Criminosos exploram credenciais válidas (roubadas ou vazadas) para penetrar nos sistemas – de fato, ataques baseados em uso indevido de identidade estão entre os principais vetores de comprometimento hoje. Por isso, proteger identidades e acessos ganhou status prioritário.
Implementar Zero Trust significa combinar múltiplos controles: autenticação forte (múltiplos fatores, e cada vez mais sem senhas), verificação de contexto (localização, dispositivo, horário), políticas de least privilege (cada usuário com acesso mínimo necessário) e segmentação de rede rigorosa. Dessa forma, mesmo que um invasor comprometa um endpoint ou uma conta, ele encontrará barreiras para se mover lateralmente e escalar privilégios dentro da empresa.
Já se fala, inclusive, em frameworks de Zero Trust por design em novas aplicações e exigências contratuais de fornecedores alinhadas a esse modelo. Porém, implementar Zero Trust não é apenas adquirir ferramentas específicas, mas sim amadurecer práticas de gestão de identidades e acessos e reestruturar a arquitetura de TI conforme princípios modernos.
A transição requer esforço colaborativo entre times de redes, infraestrutura, desenvolvimento e segurança, além de patrocínio da liderança para vencer resistências culturais. Contudo, os benefícios – em termos de redução de superfícies de ataque e prevenção de movimentos laterais do invasor – compensam amplamente. Em suma, quem planeja a cibersegurança de 2026 deve encarar Zero Trust como um pilar central, alinhando tecnologia e processos para nunca presumir confiança sem verificação sólida.
Da proteção à resiliência cibernética
Historicamente, muitas estratégias de segurança focaram quase que exclusivamente na prevenção de ataques – impedindo invasões a todo custo. Porém, o cenário atual demonstrou que, por mais investimentos que se faça em prevenção, nenhum sistema é impenetrável. Assim, a mentalidade global de cibersegurança está mudando da ideia de proteção absoluta para a de resiliência cibernética. Em outras palavras, assume-se que incidentes acontecerão eventualmente e passa a ser tão ou mais importante a capacidade de resistir, responder e se recuperar rapidamente de um ataque, minimizando danos.
A resiliência cibernética pode ser entendida como a aptidão da organização de manter operações críticas funcionando, proteger seus ativos essenciais e recuperar-se com agilidade e confiança diante de uma incursão maliciosa. Trata-se de garantir que, mesmo sob ataque, o “show não pare” – ou que, se parar, consiga voltar ao ar no menor tempo possível. Essa abordagem se apoia em vários elementos: desde arquitetura de TI redundante e distribuída (capaz de isolar falhas), passando por backups imutáveis e offline (para resistir a ransomware), até planos abrangentes de resposta a incidentes e continuidade de negócios testados regularmente.
Relatórios indicam que mesmo organizações com altos investimentos em prevenção enfrentam impactos severos quando atacadas, especialmente em termos de indisponibilidade de serviços e perdas operacionais. Isso impulsiona uma mudança de foco: não basta evitar incidente, é crucial conseguir operar através dele ou restaurar-se dele rapidamente.
Estratégias de backup e recuperação deixaram de ser meros planos de contingência para se tornarem parte integrante da cibersegurança diária. Empresas estão revisando seus RTOs/RPOs (objetivos de tempo e ponto de recuperação) para níveis agressivos, buscando restaurar sistemas críticos em minutos ou horas, e não dias, após um eventual comprometimento.
Um exemplo concreto: ao invés de apenas ter um plano de Disaster Recovery engavetado, a organização resiliente realiza exercícios periódicos de simulação de ataques (war games) e testa seus procedimentos de resposta. Equipes de segurança e TI treinam juntas para conter invasores rapidamente, enquanto áreas de negócio ativam planos de continuidade para manter atendimento a clientes mesmo se sistemas principais caírem.
Ferramentas de detecção e resposta estendida (XDR) e orquestração de respostas (SOAR) também contribuem, automatizando ações de contenção em segundos, algo fundamental quando ataques habilitados por IA ocorrem em velocidade de máquina. Conforme apontado por especialistas, a automação defensiva pode reduzir em até 95% o tempo de resposta a incidentes, compensando a dificuldade de se encontrar profissionais qualificados em número suficiente.
Resiliência também significa reduzir a superfície de ataque e pontos únicos de falha. Abordagens como Continuous Threat Exposure Management (CTEM) e Attack Surface Reduction vêm ganhando espaço: mapeando continuamente ativos expostos, vulnerabilidades e riscos emergentes, para corrigi-los proativamente. Da mesma forma, fortalecer a cadeia de suprimentos de software – exigindo Software Bills of Materials (SBOM) de fornecedores, validando componentes e monitorando terceiros – tornou-se indispensável, dado que ataques via parceiros e fornecedores aumentaram. Essa atenção à supply chain e à segurança “secure by design” (inclusive em aplicações de IA) aparece como prioridade no guia de planejamento do Gartner para 2026.
Inteligência artificial nos ataques e na defesa
Nenhuma discussão sobre cibersegurança em 2026 estaria completa sem abordar o papel ambíguo da Inteligência Artificial (IA). Por um lado, a IA tornou-se uma poderosa aliada dos defensores; por outro, virou também uma arma nas mãos de atacantes, inaugurando uma nova corrida tecnológica no ciberespaço.
Do lado das ameaças, a IA atua como multiplicador de força para os criminosos. Em 2025, observamos a IA baixar a barreira de entrada para ataques sofisticados: mesmo agentes mal-intencionados com poucos recursos podem usar ferramentas de IA generativa e automação para orquestrar campanhas massivas de phishing, criar malware polimórfico ou descobrir brechas em sistemas.
Essa combinação de IA generativa + automação vem sendo descrita como um verdadeiro “tsunami tecnológico” na segurança, pois reduz drasticamente o tempo entre a descoberta de uma vulnerabilidade e sua exploração em larga escala. Um exemplo prático: onde antes um hacker precisava manualmente desenvolver um exploit e procurar alvos, hoje ele pode treinar um modelo para fazer isso de forma automática contra milhares de sistemas simultaneamente. Assim, o intervalo para resposta manual dos defensores praticamente desaparece.
Os ataques impulsionados por IA também ficam mais convincentes e difíceis de detectar. Já mencionamos como e-mails e mensagens fabricados por IA podem enganar mesmo usuários atentos. Além disso, técnicas como prompt injection e ataques a modelos de machine learning emergem como novas preocupações: invasores tentam manipular as instruções de agentes de IA corporativos para fazê-los executar ações maliciosas ou vazar informações.
Há também o risco de envenenamento de dados de treinamento – inserir dados maliciosos em conjuntos usados para treinar algoritmos da empresa, criando backdoors “invisíveis” que contornam controles tradicionais. Em resumo, a IA ampliou o conjunto de ferramentas ofensivas dos atacantes, exigindo dos defensores vigilância e respostas igualmente inovadoras.
Felizmente, a moeda tem duas faces. Na defesa, a IA e a automação são cada vez mais indispensáveis para equilibrar o jogo. Soluções de segurança com IA conseguem analisar volumes gigantescos de tráfego e logs em tempo real, identificando padrões anômalos que denunciariam um ataque furtivo. Plataformas de machine learning já filtram automaticamente atividades suspeitas e até executam respostas iniciais, aliviando analistas de segurança sobrecarregados. Ferramentas de SOAR (Orquestração e Resposta de Segurança) integradas a modelos inteligentes permitem correlações e ações que outrora demorariam horas, agora em segundos. Isso é crítico num contexto em que enfrentamos ataques máquina vs. máquina – conforme observou um especialista, a IA tornou-se “a única tecnologia capaz de processar o volume massivo de alertas e reagir na velocidade necessária” contra ameaças automatizadas.
Além disso, surgem plataformas dedicadas à segurança de IA em si, centralizando visibilidade e controle sobre as aplicações de inteligência artificial utilizadas pela empresa. Essas plataformas ajudam a gerenciar riscos específicos, como vazamento de dados sensíveis ao utilizar modelos públicos (por exemplo, filtros para evitar que funcionários insiram dados confidenciais em chats de IA) e detecção de decisões enviesadas ou anômalas em sistemas automatizados.
Um outro aspecto que deverá tomar força é a entrada de agentes de IA operando dentro dos SOCs (Security Operations Centers) e fluxos de TI. Ou seja, bots inteligentes atuando como “analistas virtuais”, auxiliando na triagem de alertas, execução de playbooks e até tomando decisões de mitigação sob supervisão humana. Isso promete ganhos reais de velocidade na resposta, mas traz também novos desafios: será preciso aplicar governança de identidade a esses agentes (tratá-los como “usuários digitais” com privilégios mínimos, auditoria e rastreabilidade) e desenvolver contramedidas para possíveis ataques direcionados a eles.
A própria presença de IA na infraestrutura requer um pensamento “secure-by-design” – por exemplo, validar entradas e saídas de modelos (para evitar manipulação via prompt injection) e isolar ambientes de treinamento para prevenir vazamentos.
Como planejar a cibersegurança
Diante de tudo isso, como os líderes de segurança e tecnologia podem planejar a cibersegurança de forma eficaz? A seguir, reunimos recomendações práticas, unindo aspectos técnicos e estratégicos, especialmente relevantes para CISOs, diretores de TI, gestores de risco e suas equipes no contexto brasileiro:
Alinhar segurança à estratégia do negócio e envolver a liderança: Cibersegurança precisa ser tratada como parte integrante do planejamento estratégico da empresa, não um apêndice técnico. As lideranças (C-Level e conselho) devem entender os riscos digitais em termos de impacto nos negócios – por exemplo, quanto custaria uma parada operacional ou um vazamento de dados.
Governança eficaz significa ter patrocínio executivo, papéis e responsabilidades claros e métricas de desempenho/maturidade acompanhadas periodicamente. Promova discussões de risco cibernético no alto escalão e estabeleça comitês que integrem TI, segurança, compliance e áreas de negócio.
Fortalecer a cultura e os processos, não apenas tecnologias: Uma empresa resiliente se constrói com pessoas treinadas e processos bem definidos. Investir em conscientização e treinamento contínuo dos colaboradores ajuda a criar um “firewall humano”, reduzindo erros básicos. Simultaneamente, padronize e documente processos de segurança (gestão de vulnerabilidades, controle de mudanças, resposta a incidentes), garantindo que eles sejam praticados regularmente. Checklists de preparo e simulados (tabletop exercises) devem fazer parte do calendário da equipe – assim, quando um incidente real ocorrer, todos saberão como agir rapidamente.
Implementar arquitetura Zero Trust e gestão de identidades robusta: O Zero Trust é uma das melhores abordagens para reduzir riscos de intrusão e movimento lateral. Inicie ou acelere a adoção desse modelo: inventarie todos os ativos e contas da empresa, defina políticas de acesso por nível de privilégio e contexto, exija autenticação multifator avançada (preferencialmente métodos resistentes a phishing, como aplicações autenticadoras ou biometria FIDO2) e segmente ao máximo a rede.
Revise constantemente quem tem acesso a quê e revogue privilégios desnecessários. Considere soluções de Identity Threat Detection and Response (ITDR) para detectar uso suspeito de credenciais. Lembre-se: identidade é o novo perímetro, e protegê-la vai além de senhas e MFA – envolve monitorar comportamentos anômalos de usuários, implementar princípios de just-in-time access e manter controles de sessão ativos.
Integrar segurança desde o design e na cadeia de suprimentos: Ao planejar novos sistemas ou contratar serviços, exija requisitos de segurança desde o início (security by design). Para aplicações desenvolvidas internamente, adote práticas de DevSecOps, integrando ferramentas de análise de código e testes de penetração no pipeline de desenvolvimento.
Na relação com fornecedores e parceiros, realize due diligence de segurança – verifique certificações, políticas de proteção de dados e inclua cláusulas contratuais sobre níveis mínimos de segurança. Use frameworks como ISO 27001 ou os controles do NIST como referência para avaliar terceiros. Em 2026, ataques via brechas em fornecedores (caso de software de gestão, prestadores de serviço em nuvem etc.) continuarão sendo um dos caminhos favoritos dos atacantes, então gerencie o risco de terceiros ativamente.
Investir em monitoramento contínuo, inteligência e resposta ágil: Monte ou refine um Security Operations Center (SOC) capaz de funcionar 24×7, seja interno, terceirizado ou híbrido. Utilize ferramentas de monitoração contínua de ativos na nuvem, ambientes on-premises e IoT, para ter visibilidade unificada do que ocorre na rede. Alavanque Threat Intelligence – inteligência de ameaças – para se manter atualizado sobre as táticas usadas contra seu setor e receber alertas antecipados de campanhas direcionadas. Estudos mostram que 65% das empresas já utilizam CTI para influenciar decisões de segurança e investimentos. Prepare planos de resposta a incidentes claros, com playbooks automatizados para os tipos de ataque mais prováveis (ex.: ransomware, DDoS, ataque a e-mail). Acelerando detecção e resposta, você encurta o ciclo do ataque e evita que uma intrusão inicial se torne um desastre.
Priorizar resiliência e continuidade de negócios: Certifique-se de que existam backups offline e imutáveis dos dados críticos, com frequências de atualização que suportem seus objetivos de recuperação. Teste os backups regularmente – nada pior do que descobrir, no meio de uma crise, que o backup falhou ou está corrompido. Desenvolva um Plano de Continuidade de Negócios (PCN) abrangente, cobrindo como a empresa continuará operando em caso de indisponibilidade de sistemas-chave (alternativas manuais, comunicação com clientes, etc.).
Esse plano deve andar lado a lado com o Plano de Resposta a Incidentes de TI/Segurança. Ao invés de focar só em Disaster Recovery (reativo), pense em resiliência digital proativa: por exemplo, use arquitetura multi-região na nuvem para aguentar falhas, mantenha alguns serviços críticos on-premise como redundância ou contrate sites de contingência. Lembre-se da máxima atual: não é mais “ter backup”, e sim restaurar rápido – a velocidade de retorno operacional é o diferencial.
Aproveitar a inteligência artificial defensiva com cautela: Considere incorporar soluções de IA e automação em suas defesas, como ferramentas de detecção comportamental baseadas em machine learning, análise de tráfego de rede por IA ou assistentes virtuais para triagem de alertas. Esses recursos podem ampliar a capacidade da equipe e lidar com o excesso de dados de segurança em tempo real.
Contudo, faça isso com governança: avalie os dados que essas IAs consomem (evite expor informações sensíveis a serviços externos sem proteção), teste exaustivamente para evitar falsos positivos/negativos e esteja ciente de novos riscos (como tentativas de adversários induzirem erros na IA). Desenvolva políticas internas sobre uso de ferramentas de IA generativa pelos colaboradores – por exemplo, proibindo inserção de dados confidenciais em chats públicos e treinando o pessoal para reconhecer conteúdos sintéticos maliciosos.
Medir, melhorar e cumprir conformidades: Por fim, estabeleça um processo de melhoria contínua da postura de segurança. Realize avaliações periódicas de maturidade (por conta própria ou com consultorias), identificando lacunas frente a frameworks reconhecidos (ISO 27001, NIST CSF etc.) e acompanhando evolução ano a ano.
Mantenha-se em dia com as exigências regulatórias pertinentes: por exemplo, revise anualmente as diretrizes da ANPD, atualizações na legislação de proteção de dados, requisitos do setor financeiro (Resoluções Bacen), normativas de órgãos governamentais (como a E-Ciber) e padrões internacionais aplicáveis ao seu negócio. Conformidade, porém, deve ser vista como o piso, não o teto – atenda aos requisitos legais, mas vá além quando possível, usando-os como oportunidade para elevar a segurança como um todo. Essa postura proativa garantirá que sua empresa não seja pega de surpresa por auditorias ou novas leis, além de transmitir confiança a clientes e parceiros.
Seguindo essas recomendações, os gestores estarão capacitados a montar um plano de cibersegurança abrangente para 2026, que equilibra proteção preventiva e capacidade de resposta, tecnologia de ponta e processos bem estruturados, inovação e conformidade. É um trabalho multidisciplinar e contínuo, mas que, se bem executado, reduzirá drasticamente a probabilidade de incidentes graves e limitará os impactos caso eles ocorram.




